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Da Argentina ao Sri Lanka, descontentamento da população cresce em economias em recuperação

O descontentamento popular cresce em economias emergentes, como Argentina e Sri Lanka, apesar das reformas que atraem investidores e estabilizam finanças públicas.

Na Argentina, a inflação caiu de quase 300% para cerca de 33%, mas o custo de vida aumentou, impactando a classe média.

O FMI alerta que a pressão econômica e a desigualdade podem gerar agitação social, enquanto países ricos têm mais capacidade fiscal para mitigar esses efeitos.

Por Libby George e Nicolás Misculin e Uditha Jayasinghe

LONDRES/BUENOS AIRES/COLOMBO, 23 Out (Reuters) – Gustavo Raul Perez franze a testa diante de um caderno na loja de ferragens que administra há seis anos nos arredores de Buenos Aires.

Desde que Javier Milei assumiu a presidência da Argentina em 2023 — com o voto de Perez –, reformas rápidas têm empolgado os investidores e recebido elogios do Fundo Monetário Internacional (FMI). Perez, porém, é quem mais sente o impacto.

“Esse plano econômico é para poucos”, disse ele.

A inflação caiu de quase 300% para cerca de 33%, as importações foram liberalizadas e os subsídios foram reduzidos.

Mas os custos de reabastecimento de Perez triplicaram e os clientes têm menos dinheiro para gastar.

“Havia uma classe média há três anos”, diz ele. “Ela não existe mais.”

A experiência de Perez reflete uma tensão que percorre as economias emergentes: as reformas que restauraram a confiança dos investidores e estabilizaram as finanças públicas ainda não melhoraram o padrão de vida de muitos.

No Marrocos, novas e reluzentes torres de escritórios contrastam com a frustração nos arredores da cidade. No Sri Lanka, a crise econômica e o calote da dívida diminuíram, mas a pobreza permanece acima dos níveis pré-crise.

Da retirada dos subsídios aos combustíveis na Nigéria à privatização no Egito e à abertura do mercado no Uzbequistão, anos de reformas ajudaram as economias emergentes a resistir a choques — mas muitas vezes causam descontentamento entre os cidadãos, que ouvem falar de recuperações econômicas que não trazem nenhum benefício para eles.

O ministro das Finanças da Nigéria alertou que deixar de lidar com a desigualdade é como “sentar-se sobre pólvora”. O banco central de Marrocos afirma que o desemprego persistente ampliou a distância entre o desempenho econômico e as percepções dos cidadãos.

“Quando as pessoas nos mercados emergentes se deparam com o aumento dos custos dos alimentos, combustíveis e energia… é isso que elas sentem imediatamente”, diz Torbjorn Soltvedt, da Verisk Maplecroft, alertando que a agitação social e a instabilidade podem continuar. De fato, o risco médio global de agitação social atingiu este ano seu nível mais alto em quase uma década, segundo sua empresa.

O FMI e os investidores há muito pressionam as economias emergentes a reduzir subsídios e controles cambiais.

A pandemia, seguida pelos picos nos preços dos alimentos e combustíveis após a invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia, levou muitos a agir: cortando gastos, liberalizando as taxas de câmbio e aumentando as taxas de juros.

A remoção de subsídios e o enfraquecimento das moedas elevam os preços, ao mesmo tempo em que os cortes nos gastos reduzem a renda — mas os líderes “não tinham absolutamente nenhuma outra escolha”, afirma Simon Quijano-Evans, da Macro Hive, ou correriam o risco de um “abismo” de investimentos perdidos.

As mudanças atraíram os investidores de volta. As economias emergentes agora crescem cerca de 4%, aproximadamente o dobro do ritmo das economias avançadas.

Mas se a indignação pública atrapalhar as reformas, esses países correm o risco de perder mais do que a confiança — um retrocesso poderia paralisar os investimentos e a geração de empregos necessários para diminuir a diferença em relação às nações mais ricas.

UM MUNDO DE DUAS VELOCIDADES

No Marrocos, o fluxo de investimento estrangeiro direto quase dobrou no ano passado, mas protestos violentos liderados por jovens abalaram o país e, em julho, centenas de migrantes em potencial se aglomeraram em um enclave espanhol vizinho.

“Marrocos está se desenvolvendo em duas velocidades diferentes”, disse o engenheiro civil Anass Sayad enquanto caminhava com sua família na Casablanca Finance City. Ele apontou para estádios e arranha-céus ao afirmar que a educação e a saúde merecem mais atenção. O governo aumentou os gastos com ambas as áreas em seu orçamento para 2026, embora qualquer impacto leve tempo para chegar aos cidadãos.


Fonte: Portal do Holanda

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