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Um ano depois, Embrapa e universidades voltam à TI Tirecatinga em expedição de saberes e sabores

Junto com as universidades federais de Goiás e Mato Grosso, pesquisadores voltam à terra indígena com respostas sobre potenciais de culturas milenares e aprendizados de lado a lado para as futuras gerações

Entre os dias 4 e 11 de agosto de 2026, pesquisadores da Embrapa Alimentos e Territórios, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e da Universidade Federal de Goiás (UFG) participaram da segunda expedição à Terra Indígena Tirecatinga, em Mato Grosso. A programação reuniu pesquisa científica, saberes tradicionais, conservação da agrobiodiversidade, alimentação, cultura e atividades de formação junto às comunidades indígenas.

Em 2025, o grupo esteve no mesmo território entre os dias 7 e 9 de agosto, quando colheram parte das questões que iriam pesquisar ao longo do ano seguinte: sementes, bebidas, frutas, manejos.

A expedição integra as ações do Projeto Amazônia +10, desenvolvido em parceria pelas três instituições. Nesta etapa, um dos principais objetivos foi realizar a devolutiva das pesquisas desenvolvidas até agora a partir de alimentos e conhecimentos compartilhados pelas próprias comunidades, além de dar continuidade ao diálogo sobre formas de aproveitamento, conservação e valorização dos recursos existentes no território.

As atividades incluíram a apresentação dos primeiros resultados de estudos sobre araruta, bacaba e chicha, a entrega de uma publicação construída a partir dos saberes e da memória das comunidades, a distribuição de dez variedades tradicionais de milho conservadas no banco genético da Embrapa e uma oficina de culinária destinada a crianças e jovens da Aldeia Guarantã.

Pesquisa valoriza araruta e bacaba

Durante a devolutiva, os pesquisadores apresentaram resultados de estudos realizados até agora com amostras de araruta e de amêndoa de bacaba encaminhadas pelas comunidades para análise. Na pesquisa com a araruta, foram caracterizadas duas farinhas: uma produzida apenas com a polpa e outra elaborada com polpa e casca. As análises indicaram que o aproveitamento da casca aumentou os teores de minerais, proteínas e lipídios, reforçando as possibilidades de utilização integral de um alimento já presente na cultura alimentar indígena.

Os estudos também avançaram sobre a amêndoa da bacaba. A caracterização da farinha obtida a partir desse material identificou a presença de proteínas, lipídios, carboidratos e minerais e apontou seu potencial para novos usos alimentícios. A perspectiva é que as próximas etapas das pesquisas envolvam o desenvolvimento de preparações a partir dessas farinhas, como biscoitos e outros produtos, sempre considerando os hábitos alimentares e as práticas já existentes nas comunidades.

Para a coordenadora da Organização Thutalinansu, Cleide Terena, a continuidade do cultivo e do consumo desses alimentos está diretamente relacionada à preservação da cultura e à autonomia das novas gerações. “Esse trabalho é uma garantia de que meus netos e as crianças que vêm depois de nós continuarão conhecendo e consumindo esses alimentos. A pesquisa fortalece nossa cultura, ajuda a preservar nossos costumes e cria oportunidades para geração de renda dentro do território”, afirmou.

Chicha aproxima ciência, cultura e espiritualidade 

Outro tema que ganhou espaço durante a expedição foi a chicha, bebida tradicional de grande importância para os povos indígenas da região. Os pesquisadores apresentaram um primeiro levantamento científico sobre a bebida e ouviram os moradores para compreender as diferentes formas de preparo existentes na Terra Indígena Tirecatinga.

Enquanto parte da literatura descreve a chicha principalmente como bebida fermentada, os relatos da comunidade mostraram que existem tanto preparações consumidas frescas quanto outras submetidas à fermentação. Entre os Pareci, porém, o conhecimento relacionado à chicha ultrapassa os aspectos alimentares e microbiológicos. A bebida está ligada à espiritualidade e a momentos importantes da vida comunitária, como o ritual da Menina Moça, a atribuição de nomes indígenas e situações em que uma pessoa se encontra gravemente doente.

Neiruda Pareci (foto) explicou que o preparo tradicional exige disciplina e envolve cuidados com o corpo, a alimentação, o comportamento e a intenção de quem  prepara a bebida. Antes de iniciar o processo, por exemplo, a pessoa deve acordar cedo, tomar banho e se preparar para a atividade. Também são observadas restrições alimentares e comportamentais. “Sempre falo que é através disso que nossos deuses veem que estamos fazendo as coisas com vontade, que acreditamos no que estamos fazendo. Você prepara pensando no bem de quem vai consumir aquela bebida”, contou.

Quando a chicha é destinada a alguém doente, acrescentou Neiruda, o preparo também representa um gesto de cuidado e fé na recuperação da pessoa.

Os relatos ampliaram as possibilidades de investigação do projeto. Uma equipe de pesquisadoras liderada pela professora da UFMT Juliana Bento pretende acompanhar diretamente a preparação da bebida na comunidade para compreender as diferentes etapas e, posteriormente, realizar estudos sobre fermentação, microbiologia, composição nutricional e teor alcoólico.

A abordagem reforça um dos princípios das pesquisas realizadas no território: o conhecimento científico é construído em diálogo com os conhecimentos tradicionais, reconhecendo que os alimentos possuem dimensões nutricionais, históricas, culturais e espirituais.

Publicação devolve à comunidade conhecimentos compartilhados

 A expedição também marcou a entrega de uma publicação produzida a partir dos conhecimentos compartilhados pelas comunidades ao longo do projeto. O material reúne informações sobre o território, fotografias das expedições e das atividades de coleta de alimentos, além de elementos da cultura alimentar local e registros de histórias e lendas relatadas pela comunidade e transformadas em ilustrações.

Preparações tradicionais como chicha e beiju aparecem ao lado de informações sobre frutos encontrados no território, alguns deles desconhecidos até mesmo por pesquisadores que trabalham há anos com espécies nativas brasileiras.

Segundo a coordenadora do projeto pela UFMT, Maressa Morzelle, a publicação representa uma primeira entrega concreta às famílias participantes e contribui para registrar conhecimentos construídos durante as atividades.

A proposta é que cada família tenha acesso ao material, permitindo que ele também contribua para a preservação da memória e para a transmissão desses conhecimentos às novas gerações.

Milhos tradicionais voltam à terra

Conservação e circulação de sementes também fizeram parte da programação. A Embrapa Alimentos e Territórios entregou às comunidades dez variedades tradicionais de milho mantidas no banco genético da Empresa: SP 080, Preto Chileno, Composto Arco-Íris, Pipoca Roxa, Jalisco 279, Cunha, Catetinho, Tunicata, MG 102 e Branco.

As sementes foram apresentadas pelo pesquisador da Embrapa Alimentos e Territórios Moacir Haverroth e serão cultivadas e multiplicadas no território. Algumas dessas variedades chegaram ao acervo da Embrapa a partir de coletas realizadas há décadas junto a povos indígenas e agricultores de diferentes regiões. Agora, deixam a conservação em banco para retornar ao cultivo e ganhar novos ciclos de multiplicação, seleção e compartilhamento.

Cada variedade foi acompanhada de informações sobre características como altura das plantas, cor e tipo dos grãos, características das espigas e tempo de desenvolvimento. A orientação é distribuir os materiais entre diferentes moradores, formando uma rede de guardiões e guardiãs de sementes.

Como as variedades de milho podem cruzar entre si, a comunidade também recebeu orientações sobre isolamento durante o plantio e cuidados com o armazenamento das sementes destinadas às safras seguintes.
“Agora está na responsabilidade de vocês. E no orgulho também”, afirmou Haverroth ao comentar a possibilidade de que, no futuro, sementes multiplicadas em Tirecatinga possam ser levadas pelos próprios guardiões a feiras e encontros de intercâmbio.

Para Cleide Terena, a chegada das variedades representa uma oportunidade de retomada e, ao mesmo tempo, um compromisso coletivo. “É uma responsabilidade muito grande agora, porque a gente precisa encontrar dez guardiões que vão cuidar delas com amor, porque isso aqui vai ter que multiplicar para o nosso território”, afirmou.

Segundo ela, o trabalho com as sementes se soma à retomada de outros cultivos de interesse das comunidades, como a araruta, e ao desejo de recuperar alimentos que já tiveram presença mais forte nas roças locais.

Crianças aprendem com alimentos da biodiversidade

As ações da expedição também envolveram as novas gerações. Na Aldeia Guarantã, crianças e jovens participaram de uma oficina de culinária ministrada por Míriam Arazini, analista da Embrapa Alimentos e Territórios. A programação começou com uma brincadeira inspirada no jogo “Eu Sou”. Sem visualizar a figura que haviam recebido, os participantes precisavam identificar alimentos como mandioca, milho e batata-doce a partir das pistas dadas pelos colegas.

Na sequência, passaram à preparação de receitas. A atividade apresentou alternativas como beiju colorido com corantes naturais, biscoitos, peta, bolinhos de mandioca e chips de batata-doce e banana-da-terra.

Além de cozinhar, as crianças aprenderam princípios relacionados às técnicas de preparo. No caso dos chips, por exemplo, observaram a importância de cortar as fatias com espessura semelhante para que cozinhem de maneira uniforme. No beiju, conheceram a possibilidade de utilizar extratos naturais em substituição aos corantes artificiais.

Para Miriam, as atividades culinárias possibilitaram mostrar às crianças que os ingredientes disponíveis no território podem ser utilizados de diferentes maneiras. Durante a oficina, ao explicar a preparação do beiju colorido, ela destacou: “Ao invés da gente hidratar com água, nós vamos hidratar com os corantes coloridos que nós quisermos, os corantes naturais.” Como a fécula de araruta prevista inicialmente para algumas receitas não estava disponível, foi utilizado o polvilho doce, permitindo também discutir possibilidades de substituição dos ingredientes.

Cada participante recebeu ainda um caderno com receitas e orientações para que as preparações possam ser repetidas em casa e compartilhadas com as famílias. Para Maiana Terena, de 15 anos, a experiência trouxe novos aprendizados. “Foi um aprendizado muito bom para as crianças daqui aprender coisas novas, alimentos que a gente nem sabia como fazer”, contou. Entre as preparações, o beiju colorido foi sua preferida.

Conhecimento que permanece no território

Ao reunir pesquisadores, lideranças, mulheres, jovens e crianças, a segunda expedição à Terra Indígena Tirecatinga evidenciou diferentes dimensões de um mesmo trabalho: conhecer os alimentos e a biodiversidade do território, fortalecer práticas que permanecem vivas nas comunidades e produzir conhecimento científico sem separar a pesquisa dos saberes acumulados ao longo das gerações.

Mais do que levar tecnologias ou trazer materiais para análise, a proposta é construir conhecimento em parceria, fortalecendo a segurança alimentar, a agrobiodiversidade, a cultura alimentar, a autonomia das comunidades e a conservação da sociobiodiversidade. Com as sementes novamente na terra, os conhecimentos registrados e compartilhados e novas etapas de pesquisa em andamento, a expedição reforça a perspectiva de que ciência e tradição podem caminhar juntas para manter vivos alimentos, práticas e memórias que fazem parte da história da Terra Indígena Tirecatinga.


Fonte: Agência Gov / Governo Federal

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