UTI em colapso, 1,2 mil mortos/dia, Bolsonaro tentava vender respiradores
O governo Bolsonaro mobilizou embaixadas para buscar compradores de respiradores no exterior em junho de 2020, depois de Manaus atravessar o primeiro colapso hospitalar da pandemia. Seis meses depois desse ato de Bolsonaro contra a humanidade, a capital sofreu a tragédia das mortes por falta de oxigênio.
A iniciativa, revelada pelo ICL Notícias, expõe o contraste entre a agenda comercial e a vulnerabilidade da assistência no Amazonas.
Segundo reportagem de Cléber Lourenço e Jamil Chade, baseada em telegramas obtidos pela Fiquem Sabendo, o Itamaraty acionou dez embaixadas em 17 de junho. A justificativa era uma possível produção superior à demanda brasileira, sem apresentar estudos que sustentassem a projeção.
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Manaus já havia colapsado
Uma análise do Observatório Covid-19 da Fiocruz situa entre abril e maio de 2020 o primeiro grave colapso hospitalar do país, em Manaus. A capital concentrava a capacidade de atendimento hospitalar de alta complexidade do Amazonas, o que agravava a vulnerabilidade dos moradores do interior.
A cronologia é central: quando a diplomacia brasileira passou a prospectar mercados para os equipamentos, a experiência amazonense já demonstrava a incapacidade de a rede absorver uma explosão de casos graves.
O contraste permite questionar a prioridade dada à abertura de mercados diante de uma emergência ainda em curso. Não permite concluir que aparelhos retirados do Amazonas tenham sido vendidos a outros países.
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Proteção ao abastecimento
Desde 24 de abril de 2020, a lei 13.993 proibia a exportação de produtos essenciais ao enfrentamento da pandemia, entre eles ventiladores pulmonares, camas hospitalares e monitores.
Conforme a Agência Câmara, a legislação permitia excluir itens da restrição mediante ato do governo federal, desde que a medida não prejudicasse a população brasileira. O objetivo era preservar o abastecimento nacional.
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A segunda tragédia
Meses depois, o Amazonas sofreria outro colapso. Em 14 de janeiro de 2021, faltou oxigênio em hospitais de Manaus e pacientes morreram asfixiados.
Segundo manifestação da Advocacia-Geral da União ao Supremo, noticiada pela Reuters, o Ministério da Saúde havia sido informado em 8 de janeiro sobre a situação crítica dos estoques, seis dias antes do desabastecimento.
São problemas diferentes: o respirador auxilia a ventilação do paciente; o oxigênio medicinal é um insumo necessário à assistência. A tentativa de abrir mercados em 2020 não estabelece, por si só, relação causal com as mortes de janeiro de 2021.
O paralelo está na fragilidade da resposta pública, exposta em duas ondas da pandemia.
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Alertas e omissões
Em junho de 2025, o Ministério Público Federal divulgou uma decisão liminar que determinou à União, ao Governo do Amazonas e à Prefeitura de Manaus medidas de esclarecimento e atenção às vítimas da crise do oxigênio.
O MPF relatou que a fornecedora alertara o estado, em julho de 2020, sobre a necessidade de ampliar o contrato. A ampliação só ocorreu em novembro, em volume considerado insuficiente.
A investigação também apontou falhas no planejamento da transferência de pacientes e na coordenação das medidas de contenção. Para o MPF, as omissões contribuíram para centenas de mortes evitáveis.
A revelação sobre os respiradores acrescenta uma questão à memória dessa crise:
- ➔• Quais garantias sustentavam a busca por compradores externos depois de Manaus já ter mostrado o custo humano da falta de assistência?
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Fonte: Cidades — BNC Amazonas

