Cidades

Vitória de Lula acena à criação da universidade dos países amazônicos 

A vitória do presidente Lula reacende a possibilidade criação da Universidade dos Países Amazônicos sob iniciativa do Brasil. A proposta, defendida há anos por entidades estudantis brasileiras, entre elas a União Brasileira dos Estudantes (UNE) e a União Brasileira de Estudantes Secundaristas (Ubes), nunca esteve tão próxima de ser concretizada, segundo avalia o presidente do Partido Comunistas do Brasil (PC do B/AM), Yann Evanovick.

Evanovick, ex-presidente da Ubes e coordenador-geral de Políticas para a Juventude do Ministério da Educação (MEC), sugere que o governo transforme o campus da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), em Benjamin Constant, em universidade autônoma, com o propósito de acolher, também, estudantes e professores dos países amazônicos.

A cidade de Benjamin Constant, sede do município homônimo, está localizada no alto Solimões (a 1120 quilômetros de Manaus), na fronteira Brasil/ Colômbia/Peru. 

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A nova universidade teria função estratégica na integração dos países amazônicos, também, por meio da educação, cultural, ciência e tecnologia. O modelo de atuação são a Universidade Federal de Integração Latino-Americana (Unila) e a Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab).

A Unila tem sede administrativa localizada em Foz do Iguaçu (PR) e Unilab em Redenção (CE), com campi, também, em São Francisco do Conde (BA). Ambas promovem a integração com países e povos com problemas e possibilidade de soluções semelhantes.

Na avaliação de  Evanovick, a Universidade Amazônica colaborará com o conjunto de políticas que precisam ser tomadas, pelos governos e povos regionais, para defender Amazônia da predação do “capitalismo abusivo” das potencias econômicas e militares do Ocidente, como os Estados Unidos. 

A ciência, a tecnologia e o conhecimento dos povos originários reconhecem que a preservação da biodiversidade amazônica e necessária e importante para a proteção do sistema vida do planeta, agora ameaçado pela crise climática.  

A geopolítica indica que a América do Sul, embarcou no projeto de hegemonia regional do presidente Trump. Esse quadro pode prejudicar ações do Brasil dirigidas à preservação da Amazônia?

Primeiro, precisamos aproveitar essa janela de oportunidade dos próximos quatro anos do governo Lula, para realizar um projeto de desenvolvimento como centro da agenda nacional.

Não podemos pensar o território da Amazônia brasileira sem considerar as suas particularidades, mais do conjunto de países que têm partes na região.  

Existe, inclusive, a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), um instrumento político multilateral, para ser incluída no debate do planejamento estratégico do Brasil.

Em termos de ações, isso significa o quê?

Que se deve ocupar esse território com Ciência e Tecnologia e com as nossas estruturas educacionais.

Existe um vazio educacional na Amazônia. Refiro-me aos dois principais instrumentos estratégicos que temos: as universidades federais e os institutos federais de educação, que são indutores de pesquisa em qualquer lugar onde estejam […]

Mas é preciso considerar que a região amazônica abriga outros países que hoje estão alinhados aos interesses dos Estados Unidos na região. 

O senhor acha que há abertura, nesse momento, à uma integração regional para além da economia de mercado? 

Acho que existe, inclusive, é bom que se registre. No dia da reeleição do presidente Lula, foram exatamente os presidentes do Peru e da Colômbia os primeiros a declarar apoio ao presidente Lula. É óbvio: o Brasil tem um papel estratégico no mundo, mas especialmente na América Latina.

E com um detalhe: Lula compreende a necessidade de cada povo percorrer o seu caminho histórico. É interesse para esses países o debate estratégico de proteção da Amazônia. Agora, precisamos criar as condições para realizá-lo.  

Precisamos, por exemplo, que o Fundo Amazônico cumpra o papel estruturante de apoiar projetos não só do Brasil, mas dos demais países amazônicos. 

Aliás, nessa linha da ciência e tecnologia há um debate sobre a criação de uma universidade Amazônia. 

Infelizmente ainda não avançamos na transformação do campus Ufam em Benjamin Constant, na fronteira com a Colômbia e com o Peru, na Universidade da Amazônia. 

 Na fronteira com o Paraguai, temos a Unila, que cumpre um papel estratégico na região do Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, países fundadores). Participei, como presidente da Ubes, das discussões para constituição da Unila, cujo primeiro reitor foi o professor Élgio Trindade, um grande brasileiro. 

A Unila foi criada para fortalecer relação entre os países do Cone Sul, a Argentina, o Brasil, o Uruguai e o Paraguai. 

Criamos, igualmente, a Unilab, a universidade pensada para dar conta dos desafios dos países da África. 

Então, agora precisamos criar uma universidade para promover a integração dos países da América Latina ao Norte do Brasil: Colômbia, Peru, Venezuela Guiana Francesa, Suriname e Guiana.

Já existe um campus novo em Benjamin Constant, literalmente na fronteira do Brasil com a Colômbia e com Peru. Poderia ser uma base de produção de ciência e tecnologia, com foco de proteger, permanentemente, a Pan-Amazônia. Seria uma medida estruturante de integração com outros países da América Latina. 

Há, inclusive, há um projeto de lei do ex-senador João Pedro (PT), aprovada na Comissão de Educação do Congresso com relatoria do saudoso senador Jefferson Pérez…

… Desconheço essa propositura, mas esse é um tema debatido há décadas. Essa questão já foi deliberação de congresso de UNE. Não é de hoje, é coisa de 20 anos para cá que se debate a construção de uma universidade que dê conta dos desafios amazônicos. Nesse aspecto, deve ser parte desse acúmulo que fez o senador João Pedro apresentar esse projeto de lei. 

Há condição favorável à aprovação dessa proposta hoje?

Sim. Nunca estivemos tão perto de aprovar uma universidade amazônica. Vou além: penso que ainda não conseguimos aprová-la, porque não se trata de prioridade da bancada federal.

No dia que for prioridade da bancada federal, a proposta da universidade amazônica se consolida porque os docentes, técnicos e discentes do campus da Ufam de Benjamin Constant querem a autonomia da instituição. Existe uma estrutura física que comporta a futura universidade. Há material humano competente para gerenciar a nova universidade. Os professores e técnicos continuarão vinculados ao seu local de trabalho.

Qual será a mudança do ponto de vista funcional?

Amigo, o reitor fala com o ministro, mas o diretor fala com o reitor. A autoridade universitária dialoga diretamente com o ministro da Educação, com o governo brasileiro. E com os governos de outros países.

Em se tratando de Amazônia, qual seria o melhor modelo institucional?

Talvez, o melhor caminho seja o da Unila, uma universidade liderada pelo Brasil que recepciona estudantes da América Latina, do Mercosul e até da África.

O Brasil deve implantar a universidade, uma vez que outros países esbarram em suas legislações. A legislação da educação colombiana é diferente da do Brasil, tanto na questão pedagógica quanto na financeira. Esse é um dos entraves. Mas podemos criar a Unila da Amazônia, a qual defendo.

Aliás, o Brasil, maior economia da região, intercambia-se com os países vizinhos mais pela economia e menos pela cultural e conhecimentos dos povos originários… 

Sim, mas veja, isso pode avançar, porque recepcionaríamos professores visitantes desses países e abriríamos vagas direcionadas a estudantes da Pan-Amazônia.

Este é um projeto concreto, professor. Ele precisa, claro, ser constituído por meio da educação, ciência e tecnologia, também com as Força Armadas e integração com os povos originários da região.  

Então, nesse caso, o senhor está dizendo que o Brasil deve de coordenar um projeto de defesa integral da Amazônia? 

A maior parte da floresta amazônica está no território nacional, né? E o Brasil tem a democracia mais robusta da região, tem instituições mais consolidadas. É o país com a maior parte da floresta e, também, é o país que tem uma condição hoje orçamentária de dar conta de um desafio desse.

Acho, entretanto, que é fundamental repetir que qualquer projeto de desenvolvimento e proteção da região respeite a autodeterminação dos povos. No debate e na execução deve prevalecer o debate parte a parte de que está nesse território e não um lugar de superioridade.

Foto: Divulgação/Ufam


Fonte: Cidades — BNC Amazonas

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