Como o financiamento militar dos EUA impulsionou os cães-robôs da China
A Unitree Robotics, fabricante chinesa de robôs, baseou seus cães-robôs em inovações financiadas pelas Forças Armadas dos EUA, segundo especialistas.
O modelo Go2 da Unitree, lançado em 2023 por US$1.600, rapidamente dominou o mercado global, com mais de 18.000 unidades vendidas no último ano.
O Pentágono incluiu a Unitree em uma lista de empresas militares chinesas, limitando o uso futuro de sua tecnologia pelas Forças Armadas dos EUA.
WASHINGTON, 18 Ago (Reuters) – A Unitree Robotics da China — uma das maiores fabricantes mundiais de robôs humanóides e quadrúpedes — baseou os projetos de seus cães-robôs de maior sucesso em inovações financiadas pelas Forças Armadas dos Estados Unidos, segundo um ex-funcionário da área de tecnologia de defesa dos EUA e três pesquisadores de ponta envolvidos no projeto.
Lançado em 2023, o modelo Go2 da Unitree, de US$1.600, ajudou a empresa a dominar rapidamente o mercado global de robôs quadrúpedes. Sua oferta pública inicial (IPO) em Xangai gerou uma demanda frenética. Outro robô da Unitree foi exibido na televisão estatal chinesa, armado e acompanhando tropas do Exército Popular de Libertação (PLA, na sigla em inglês) em um exercício.
Esses robôs se baseiam em avanços no movimento quadrúpede financiados pelo Laboratório de Pesquisa do Exército (ARL, em inglês) do DEVCOM dos EUA e por outros programas militares, disseram os pesquisadores e o ex-funcionário à Reuters.
O projeto financiado pelo Exército se tornou, “basicamente, o primeiro robô da Unitree que teve alguma escala”, disse Gavin Kenneally, ex-pesquisador da Universidade da Pensilvânia envolvido no programa.
Ben Katz, que trabalhou no Laboratório de Robótica Biomimética do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, como parte de um consórcio de universidades financiado pelos programas militares, disse que as dimensões da popular série Go da Unitree eram “ao milímetro” quase idênticas às de um robô inovador que ele ajudou a desenvolver, chamado Mini Cheetah.
A Reuters é o primeiro veículo de mídia a detalhar as conexões entre os projetos da Unitree e o programa do Exército.
O episódio joga luz sobre problemas mais amplos relacionados à capacidade dos Estados Unidos de competir com o setor manufatureiro chinês, orientado pelo Estado, em indústrias estratégicas de alta tecnologia, incluindo aquelas essenciais para a segurança nacional.
Apoiadas por subsídios, clusters de fábricas de componentes e uma tolerância a pesadas perdas, as empresas chinesas conquistaram participação de mercado em setores como painéis solares, drones, veículos elétricos e comunicações quânticas, muitos dos quais foram desenvolvidos inicialmente nos EUA com apoio governamental ou militar.
Kenneally comercializou as inovações norte-americanas por meio de sua empresa Ghost Robotics, que fornece robôs avançados e resistentes às forças especiais dos EUA. Mas, em comparação com a Unitree, sua produção é pequena e onerosa.
Em junho, o Pentágono incluiu a Unitree em uma lista de empresas militares chinesas, classificando-a como “contribuinte da base industrial de defesa chinesa”. Essa designação não chega a ser uma sanção, mas limita o uso futuro da tecnologia da Unitree pelas Forças Armadas dos EUA. A Unitree afirmou que seus robôs se destinam ao uso civil.
A Unitree, o Conselho de Estado da China e o Ministério da Defesa da China não responderam a pedidos de comentário.
A Unitree não agiu de forma desonesta ao utilizar a pesquisa do Exército dos EUA. As descobertas do programa foram publicadas abertamente para estimular o progresso na área, uma prática comum.
A porta-voz do ARL, Amanda Ligon, afirmou que a pesquisa “fortaleceu o ecossistema mais amplo de robótica dos EUA” e serviu de base para trabalhos subsequentes tanto no governo quanto no setor privado.
A ARL encaminhou perguntas da Reuters sobre a comercialização da tecnologia pela Unitree ao Pentágono, que preferiu não comentar.
EMPRESAS X POLÍTICA INDUSTRIAL
A Unitree vendeu mais de 5.500 humanóides e 18.000 quadrúpedes no ano passado, segundo documentos da empresa, e agora está avaliada em cerca de US$9 bilhões às vésperas de sua estreia na bolsa de valores na quarta-feira.
Por outro lado, nenhuma empresa norte-americana produziu tais robôs, nem mesmo a Tesla, de Elon Musk, que vem exibindo protótipos de seu humanóide Optimus há anos. Em uma teleconferência sobre resultados financeiros em janeiro, Musk considerou a China “incrivelmente boa” em ampliar a produção.
A Boston Dynamics, empresa norte-americana cujo robô canino de 2019, o Spot, utiliza tecnologia diferente, argumentou recentemente em uma audiência no Congresso que os preços baixos da China tirariam as empresas norte-americanas do mercado.
Nenhum dos pesquisadores de robótica dos EUA que conversaram com a Reuters defendeu que essas pesquisas financiadas pelo governo fossem mantidas em segredo. Em vez disso, afirmaram que os formuladores de políticas dos EUA precisam se concentrar em permitir que as empresas comercializem rapidamente esses avanços para competir com a China.
O ARL também afirmou que a publicação é importante para o avanço científico e tecnológico.
Os EUA se destacam em inovação e desenvolvimento de software, mas precisam garantir capital, base industrial, mão de obra altamente qualificada e cadeias de suprimentos de peças para ampliar as inovações, disse Vijay Kumar, reitor da Penn Engineering.
Por enquanto, as autoridades dos EUA costumam proteger as empresas com restrições comerciais a produtos chineses inovadores. Em julho, a Comissão Federal de Comunicações (FCC, em inglês) proibiu a importação de futuros modelos de robôs humanóides e quadrúpedes fabricados no exterior, incluindo os da Unitree. A China ameaçou retaliar a proibição da FCC.
A embaixada da China em Washington afirmou em um comunicado que suas empresas estão tornando as novas tecnologias acessíveis e disponíveis internacionalmente. Ela acusou os EUA de abusar do poder administrativo e de “distorção de mercado e intimidação unilateral”.
A maioria dos especialistas que conversou com a Reuters apoiou a proibição dos EUA, mas afirmou que a política não é suficiente para construir um setor capaz de alcançar a China.
“Não se trata apenas de uma competição entre empresas de robótica dos EUA e da China”, disse Kenneally, fundador da Ghost Robotics. “É uma competição entre empresas privadas dos EUA e a estratégia nacional coordenada da China.”
Em 2015, o presidente chinês Xi Jinping traçou um plano de 10 anos para liderar setores como energia verde, veículos elétricos e robótica. Desde então, a China tem canalizado capital para apostas arriscadas na manufatura avançada do século 21, caracterizada por margens de lucro baixas.
A rápida engenharia reversa de produtos realizada pelos fabricantes chineses de robôs se baseia no domínio do país no refinamento de minerais essenciais necessários para ímãs em aplicações robóticas e na densidade de fornecedores de motores, engrenagens, “músculos” conhecidos como atuadores e outros componentes concentrados perto da sede da Unitree, em Hangzhou.
Reyk Knuhtsen, analista de robótica da Semi. Analysis, classificou o fracasso dos Estados Unidos em comercializar pesquisas nacionais como uma “oportunidade perdida”, citando a preferência do capital de risco norte-americano por startups de software de alto retorno. Seria necessário mais do que barreiras comerciais contra a China para impulsionar a fabricação de robótica, afirmou ele.
“Essa é uma montanha muito alta para os EUA escalarem”, disse ele.
Fonte: Portal do Holanda

